Inspiração

O ano só acaba depois do Carnaval

3 janeiro, 2017

Dia 27 de Dezembro – Bacana essa coisa de alugar a casa junto com pessoas desconhecidas. Calhou de só ter gente legal. Giovanna é professora de ioga, casada com Jeff, que é um arquiteto sustentável. Tem dois filhos lindos, veganos e sustentáveis. Bruce é chinês, ninguém sabe o que ele faz, mas parece um monge budista. Como ninguém se conhece, vai ser bom pra gente não beber muito (nem usar drogas). Parei com tudo. Esse Réveillon vai ser um detox. À noite chegou Maria, que é massoterapeuta – sustentável – e prometeu massagens em todos nós. Temos um prosecco, mas só vamos abrir no dia 31. Ah, parei de fumar.

Dia 28 – Todos fizemos ioga na beira da praia. Mais um dia sem fumar. E me juntei aos filhos de Jeff: agora sou vegano. Maria fez massagem em Jeff, que diz que saiu renovado. Descobri as delícias do queijo de castanhas. Quase igual ao queijo normal. (Acho que Bruce, o monge, está flertando com Maria, a massagista).

Dia 29 – Abrimos o prosecco hoje mesmo. Bruce, o monge, quem diria, apertou um baseado. Talvez ele não seja um monge budista. Como já tinha bebido, acabei fumando uns cigarros. E fiz brigadeiro. Giovanna liberou que os filhos provassem. Surto coletivo. Nunca foram tão felizes. Não tinha mais prosecco no mercadinho, compramos um espumante qualquer (dessa vez, uma dúzia).

Dia 30 – Acordei e encontrei Bruce cheirando lança-perfume no banheiro. Cada vez mais acho que ele não é monge. Acabamos, de manhã cedo, com a dúzia de espumante. Fumei um maço de Marlboro vermelho. No dia primeiro, paro de vez. Fomos no mercado e não tinha mais espumante. Compramos três engradados de Nova Schin. As crianças veganas descobriram as delícias do cachorro-quente. Comeram sete. No meio da madrugada fui ao banheiro e Maria estava fazendo massagem em Jeff. Ao que parece, é tântrica.

Dia 31 – Acordamos com Bruce botando um ácido em nossa boca. As crianças veganas acharam linguiças na dispensa e fizeram um churrasco. Giovanna estava entretida demais com a massagem de Maria para censurá-las. Bruce revelou que não era um monge chinês mas um traficante cearense (que estava fugindo da polícia). Acho que ele e Jeff estão ficando. Acabamos com os engradados de Schin.

Dia 1 – Acho que a minha cabeça vai explodir. Fiz brigadeiro e misturei com os restos de churrasco. Impossível parar qualquer coisa hoje. Preciso passar no mercado pra comprar mais cerveja. O ano só começa depois do carnaval.

*Artigo de Gregório Duvivier,  publicado no site da Folha de São Paulo no dia 02/06).

 

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Gregorio Duvivier é ator e escritor e um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos. Escreve às segundas na Ilustrada, Folha de São Paulo.

Embora ele seja polêmico às vezes, eu adoro seus artigos.

Imagem do Google.

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